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Ovo branco e ovo castanho: o que a cor da casca realmente significa

Mão a pegar um ovo branco numa bancada com caixas de ovos diversos e uma tigela com gema batida.

Na prateleira do supermercado, é comum julgar-se um ovo pela cor da casca - sem pensar no que essa tonalidade, afinal, revela.

Durante anos, ganhou força a ideia de que o ovo branco é “industrial” e que o ovo castanho (marrom) é “caseiro e mais saudável”. A crença aparece em conversas de cozinha, nas redes sociais e até em mercados e feiras. No entanto, a ciência dos alimentos aponta noutra direcção - e explica de forma bem mais interessante o que determina a cor da casca.

Cor da casca: a verdadeira responsável está na galinha

À vista desarmada, a diferença é simples: há ovos de casca branca e ovos de casca castanha, por vezes num tom bege. Só que a origem dessa variação não passa por química, injecções de hormonas nem “truques” da indústria.

"A cor da casca é determinada principalmente pela raça da galinha, não pela qualidade do ovo."

Em termos gerais, galinhas com plumagem clara tendem a pôr ovos de casca branca. Já as aves de penas mais escuras, avermelhadas ou acastanhadas costumam produzir ovos com casca castanha. A explicação é genética: durante a formação do ovo, o corpo da galinha deposita pigmentos naturais na casca.

Esses pigmentos são produzidos no oviduto, numa fase final do processo. Nos ovos castanhos, o destaque vai para compostos chamados protoporfirinas, também associados à coloração das penas. Quando a raça não produz esses pigmentos, a casca permanece branca.

Ovo castanho é mais saudável do que o branco?

Esta é uma pergunta recorrente, ano após ano. A resposta técnica é simples: se as galinhas forem criadas em condições semelhantes, ovos brancos e ovos castanhos apresentam uma composição nutricional muito parecida.

Proteínas, gorduras, vitaminas e minerais variam muito mais em função da alimentação e do maneio das aves do que por causa da cor da casca. Se duas galinhas recebem a mesma ração, vivem num ambiente comparável e seguem o mesmo controlo sanitário, o que chega ao prato será, na prática, quase equivalente.

"O que muda o valor nutricional do ovo é o que a galinha come e como ela vive, não a cor que você vê na embalagem."

Há produtores que reforçam a dieta com fontes de ómega-3, vitaminas ou minerais específicos. Quando isso acontece, é habitual ver no rótulo indicações como “ovo enriquecido com ómega 3” ou expressões semelhantes. Esse enriquecimento pode alterar o perfil nutricional - mas não depende de a casca ser branca ou castanha: o ponto decisivo continua a ser a alimentação da galinha.

Por que muitas pessoas juram que o castanho é mais gostoso?

A percepção de sabor e “qualidade” também é influenciada pela expectativa. Ovos de casca castanha são frequentemente associados, no imaginário popular, a galinhas “felizes”, ao quintal, ao campo e à criação tradicional. Em contrapartida, o ovo branco ficou com fama de “industrial” e menos ligado à natureza.

Quando alguém acredita que um alimento é mais natural, tende a avaliá-lo como mais saboroso, mesmo sem diferença real na composição. Em provas cegas - em que não se vê a casca antes de provar - a capacidade de distinguir pelo paladar diminui de forma acentuada.

De onde vêm os raros ovos azulados?

De vez em quando surgem imagens de ovos azuis, esverdeados ou muito claros, que geram surpresa. São perigosos? Não, desde que estejam frescos e bem acondicionados.

Em algumas zonas do Chile, existe uma raça chamada Araucana que põe ovos naturalmente azulados. A cor vem de outro composto, a oocianina, que se deposita na casca desde as camadas internas até à superfície. Chamam a atenção pelo aspecto, mas não são mais perigosos nem têm efeitos “milagrosos”.

  • Ovos brancos: mais comuns em sistemas intensivos, dependendo do país;
  • Ovos castanhos: muito presentes em mercados que valorizam a aparência “caseira”;
  • Ovos azulados: associados a raças específicas, com menor produção e distribuição limitada.

Como a Araucana põe menos ovos do que outras raças, o produto tende a ser mais caro e difícil de encontrar. Em muitos mercados, quase não chega às prateleiras.

Alimentação, stress e saúde da galinha também influenciam

Embora a raça defina a cor base, o ambiente pode fazer pequenos ajustes. A saúde da ave, o nível de stress e a nutrição podem mexer com a intensidade da cor e até com a resistência da casca.

"Galinhas mal alimentadas, doentes ou sob constante ameaça de predadores podem botar ovos com casca mais fina, manchada ou menos uniforme."

Isto aplica-se tanto a ovos brancos como a ovos castanhos. Uma exploração que assegura boa qualidade de ração, evita sobrelotação e reduz o stress dos animais tende a produzir ovos com cascas mais uniformes e consistentes.

Cor da gema não tem relação com cor da casca

Há ainda outra confusão comum: uma gema mais “carregada” não vem do facto de a casca ser castanha. A tonalidade da gema depende sobretudo dos pigmentos presentes na alimentação, como os carotenóides encontrados no milho, em folhas verdes e nalguns vegetais.

Característica Ovo branco Ovo castanho
Definido por Raça da galinha (penas claras) Raça da galinha (penas escuras)
Valor nutricional Sem diferença relevante, quando criadas em condições parecidas Sem diferença relevante, quando criadas em condições parecidas
Percepção do consumidor Muitas vezes vistos como “menos naturais” Associados a ovo caseiro e bem cuidado
Influência da ração Afecta gema, sabor e nutrientes Afecta gema, sabor e nutrientes

Como escolher ovos com mais segurança

Na prática, há critérios muito mais úteis do que a cor da casca para decidir o que comprar. Alguns pontos ajudam a escolher melhor:

  • Confirmar a data de validade e, quando existir, a data de fabrico;
  • Verificar se as cascas estão limpas, sem fissuras e sem odores estranhos;
  • Ler na embalagem o tipo de criação (tradicional/“caipira”, sem gaiolas, convencional);
  • Guardar os ovos num local fresco, idealmente no frigorífico, com a ponta mais estreita virada para baixo.

Em casa, um teste simples pode dar uma indicação de frescura: coloque o ovo num copo com água. Se afundar e ficar deitado, costuma estar mais fresco. Se ficar na vertical ou boiar, é mais antigo e convém redobrar a atenção antes de consumir.

Equívocos comuns e o que realmente merece atenção

Ao longo do tempo, circularam teorias sobre ovos brancos terem mais “veneno” ou mais químicos. Quando se olha para a legislação sanitária e para dados de composição, essa ligação não se confirma. Produtos de origem animal, sejam de casca branca ou castanha, só chegam ao consumidor depois de cumprirem inspecções e regras rigorosas de qualidade.

O risco mais relevante está, sobretudo, no mau armazenamento: falta de refrigeração em ambientes muito quentes, cascas partidas e contaminação por manuseamento. Estes factores podem aumentar a probabilidade de presença de bactérias, como a Salmonella, se não houver higiene e controlo.

Do ponto de vista prático, compensa mais focar em:

  • Condições da exploração e referências a bem-estar animal indicadas na embalagem;
  • Transporte e exposição no ponto de venda, evitando sol directo e calor excessivo;
  • Boas práticas na cozinha, incluindo cozinhar bem os ovos para grupos mais vulneráveis, como idosos e grávidas.

Ovo branco, castanho, azul: o que realmente chega ao prato

Se alguém fizer dois ovos de origem semelhante - um branco e um castanho - fritos na mesma frigideira e com o mesmo óleo, a diferença percebida dificilmente virá da cor da casca. O que tende a pesar é a frescura, o ponto de confecção e as preferências pessoais.

Imagine um cenário: uma galinha de penas brancas, criada ao ar livre, alimentada com milho, restos de horta e ração equilibrada, põe um ovo branco. Ao lado, uma galinha castanha, fechada numa gaiola apertada e com ração de qualidade duvidosa, põe um ovo de casca castanha. Se o consumidor decidir apenas pela cor castanha, pode acabar por levar um ovo de pior origem - mesmo achando que escolheu “o melhor”.

Para quem quer melhorar a alimentação, olhar apenas para a casca é pouco útil. Faz mais sentido avaliar a proveniência, o selo de inspecção e o tipo de criação indicado na embalagem. Assim, a cor fica como um pormenor estético, e a decisão passa a assentar em factores que realmente influenciam a saúde e a forma como os animais são tratados.


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