À medida que a França se prepara para a 75.ª final de Miss France, em dezembro de 2025, uma antiga rainha dos anos 1960 acompanha tudo ao pormenor, caneta e bloco de notas na mão. A leitura que faz da evolução do concurso está longe de ser saudosista - mas também não é um aplauso sem reservas.
Uma Miss France 1963 a ver o espetáculo de 2025
Muguette Fabris foi coroada Miss France em 1963, no Grand-Théâtre de Bordéus. Hoje, já octogenária, esta morena esguia e cheia de energia, de origem italiana, mantém um interesse quase clínico pelo concurso que lhe mudou a vida.
Todos os anos, senta-se diante da televisão para ver a emissão em direto, com o caderno preparado. Faz a sua própria classificação das candidatas que considera com hipóteses de vencer, observa a encenação, e aponta as respostas que mais se destacam. E admite, sem rodeios, que continua verdadeiramente impressionada com o trabalho do comité organizador.
Ainda assim, é também uma das poucas pessoas que consegue comparar, a partir de experiência direta, os concursos minimalistas dos anos 1960 com o espetáculo televisivo altamente produzido que deverá acontecer na sala Zénith, em Amiens, em 2025.
Por trás do brilho, antigas vencedoras começam a perguntar-se se a preparação foi tão longe ao ponto de retirar espontaneidade às candidatas.
“Demasiado gerido”: quando o coaching apaga a personalidade
Para Fabris, a transformação mais marcante não está nos vestidos nem no palco, mas no nível de controlo exercido sobre as jovens.
Ela vê com bons olhos uma parte dessa evolução. O facto de, hoje, as candidatas terem de fazer um teste de cultura geral parece-lhe um avanço. Pelo menos em teoria, a inteligência passou a contar.
No entanto, considera que o formato atual - um questionário de escolha múltipla - é demasiado elementar. Na sua perspetiva, as concorrentes deveriam responder com palavras próprias e ser levadas a uma verdadeira profundidade cultural: história, arte, vida política, e não apenas curiosidades.
O que mais a inquieta é a sensação de que, quando chega a noite decisiva, muitas jovens já aparecem como se estivessem a cumprir um guião.
Em televisão em direto, diz ela, a excitação e a pressão juntam-se a um coaching pesado, e algumas concorrentes parecem ter perdido a faísca distintiva que as levou até ali.
Na sua descrição, as candidatas alinham-se diante do veterano apresentador Jean-Pierre Foucault e debitam frases afinadas em ensaios. Expressões feitas substituem reações instintivas. O julgamento pessoal fica para trás.
Para Fabris, esta perda de “livre-arbítrio” é um preço elevado a pagar por um espetáculo impecavelmente oleado.
1963: sem treino de media, sem guião, apenas tu e a imprensa
O contraste com a sua própria experiência é evidente. Em 1963, não existiam mensagens preparadas, nem coaches de comunicação, nem consultores de imagem. As concorrentes eram lançadas diretamente para o centro das atenções.
Os jornalistas disparavam perguntas em corredores e camarins. A recém-coroada Miss France tinha de responder “no improviso”, sem filtro e sem rede de proteção. Cada resposta - desajeitada ou brilhante - era, de facto, dela.
Essa ausência de orientação também tinha um lado negativo: havia muito menos oportunidades profissionais e pouca proteção caso um comentário corresse mal. Na altura, ser Miss France não significava, automaticamente, abandonar o emprego.
Fabris, então professora de Matemática, limitou-se a continuar a dar aulas. A coroa trazia prestígio, mas não abria, por si só, uma nova carreira no entretenimento.
Da sala de aula aos apartamentos em Paris
O cenário para as vencedoras de hoje é muito diferente. Ficam alojadas em Paris, recebem várias regalias associadas à função e esperam-se delas agendas cheias de compromissos públicos.
Para muitas concorrentes, o título tornou-se uma rampa de lançamento para os media: televisão, rádio, influência digital, representação. O programa funciona como uma grande audição, observada por produtores e diretores de casting.
Fabris reconhece o atrativo desse caminho. Ainda assim, alerta para a dureza das probabilidades.
- Só uma candidata conquista o título.
- Um pequeno grupo consegue construir uma presença mediática duradoura.
- A grande maioria regressa a casa sem um plano profissional claro.
Por isso, aconselha as adolescentes que sonham com a coroa a garantirem também uma qualificação sólida e a pensarem cedo no que gostariam de fazer se, amanhã, as câmaras se desligassem.
Numa era em que uma única publicação viral pode arruinar uma reputação de um dia para o outro, defende que um curso superior ou uma profissão oferece uma rede de segurança mais fiável do que seguidores.
Ela própria diz não gostar das redes sociais nem da rapidez com que surgem tempestades online, mas admite que as concorrentes já não as podem ignorar. A imagem delas passa a viver permanentemente em plataformas que não controlam.
Regras, feminismo e uma “imagem da mulher” específica
Miss France também teve de reagir aos debates sobre sexismo e inclusão. Regras que antes pareciam intocáveis estão a ser contestadas ou flexibilizadas: limites de idade, estado civil, maternidade.
Fabris, que se descreve como pragmática e defensora da independência feminina, admite sentir-se dividida. Na verdade, ela apreciava a regra antiga segundo a qual só mulheres solteiras podiam concorrer.
Do seu ponto de vista, essas normas eram menos draconianas do que os críticos sugerem e mantinham uma visão clara - embora tradicional - de feminilidade, que ainda faz sentido para a sua geração.
Assinala que, na edição mais recente, nenhuma candidata era casada de qualquer forma, o que sugere que a imagem promovida pelo concurso continua em linhas familiares, mesmo quando a comunicação pública insiste na mudança.
Ainda assim, insiste que cada mulher deve viver como entende, e que a liberdade mais profunda muitas vezes não vem de um programa de televisão, mas sim da educação, do trabalho e de uma autoemancipação gradual.
Para ela, a autonomia real costuma começar na maioridade legal, quando as jovens passam a tomar decisões por si - e não quando sobem a um palco com um vestido de gala.
Inteligência artificial, controlo de imagem e o futuro dos concursos de beleza
Olhando em frente, Fabris identifica outra força potencialmente disruptiva: a inteligência artificial. Nota que o ritmo do progresso tecnológico está a acelerar e que os concursos não ficarão imunes.
Imagens geradas por IA e deepfakes já tornam difusa a fronteira entre beleza real e beleza sintética. Nesse contexto, avaliar mulheres pela aparência num espetáculo em direto levanta novas questões: como podem os espectadores confiar no que veem? Como podem as concorrentes proteger a sua imagem quando ela pode ser replicada e alterada infinitamente?
As próprias equipas de produção poderão recorrer mais à IA para escrever, editar e polir conteúdos, reforçando a sensação de que tudo é pré-embalado muito antes de o programa começar.
| Era | Características principais | Riscos para as concorrentes |
|---|---|---|
| Anos 1960 | Coaching mínimo, poucas oportunidades, alcance mediático limitado | Pouca proteção, visibilidade de curta duração |
| Anos 2000 | Grandes audiências na TV, ascensão de carreiras mediáticas, branding mais forte | Escrutínio público, controlo de imagem mais apertado |
| Anos 2020–2030 | Pressão das redes sociais, ferramentas de IA, economia de influenciadores | Assédio online, volatilidade da reputação, réplicas digitais |
Para lá da tiara: o que as jovens candidatas muitas vezes subestimam
O testemunho de Fabris funciona quase como um guia informal de carreira para futuras concorrentes. Ela chama a atenção para vários pontos cegos que muitas jovens ignoram quando enviam a candidatura.
Em primeiro lugar, o custo em tempo: meses de preparação, ensaios e deslocações podem adiar ou perturbar os estudos. Um ano de pausa dedicado a perseguir uma coroa pode ser entusiasmante, mas deixa um vazio no currículo se nada vier a seguir.
Em segundo lugar, a pressão emocional: exposição nacional aos 19 ou 20 anos significa enfrentar julgamentos públicos sobre aparência, sotaque, opiniões e vida privada. A crítica chega agora de forma imediata e pode vir de milhares de contas anónimas.
Em terceiro lugar, o “depois”: quando os holofotes passam para o próximo grupo de aspirantes, muitas ex-concorrentes têm de reconstruir a identidade fora do rótulo do concurso.
- Algumas regressam à universidade ou a formação profissional.
- Outras abrem pequenos negócios, usando a fama curta para atrair clientes.
- Uma minoria mantém-se no meio artístico, muitas vezes após anos de castings.
O percurso da própria Fabris - ao conciliar um título muito visível com um caminho académico exigente (foi a única Miss aceite, durante o seu reinado, na prestigiada École Polytechnique de França) - ilustra um modelo possível: encarar a coroa como um capítulo, e não como um plano de vida.
O que “singularidade” significa realmente num concurso moderno
Quando Fabris afirma que as candidatas “perdem parte da sua singularidade” na noite da eleição, está a apontar para uma tensão que atravessa quase todos os concursos de talento ou de beleza atualmente.
De um lado, as equipas de produção precisam de um produto televisivo coerente: respostas limpas, gestos semelhantes, arcos narrativos reconhecíveis. Isso empurra para coaching intensivo e muitos ensaios. Do outro, o público pede cada vez mais autenticidade e diversidade de personalidade.
Neste sentido, singularidade não é apenas uma questão de aparência ou de um hobby fora do comum. É a forma como uma candidata pensa, como reage quando é apanhada de surpresa, como enfrenta uma pergunta difícil sobre política ou questões sociais sem um guião.
Uma maneira prática de preservar essa vantagem é preparar não só a postura em palco ou o sorriso, mas também o próprio julgamento. Ler de forma ampla, formar opiniões e treinar a expressão oral sem rede pode ajudá-las a resistir - com delicadeza - quando uma frase ensaiada não soa a elas.
Para quem vê e vota, compreender esta coreografia de bastidores torna o espetáculo mais legível. Uma resposta impecavelmente entregue pode refletir horas de treino, enquanto uma reação um pouco imperfeita, mas sentida, pode ser o momento em que a personalidade real de uma candidata finalmente se impõe por entre o brilho.
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