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Óleo de rícino nas pestanas: a moda do TikTok e Instagram e os riscos para os olhos

Mulher aplica rímel nos cílios enquanto se olha no telemóvel apoiado numa secretária.

Um rímel que secou demasiado, um curvador de pestanas usado com entusiasmo a mais… e, de repente, as pestanas parecem mais ralas e frágeis. No TikTok e no Instagram, repete-se a “cura” como se fosse um mantra: uma gota de óleo de rícino todas as noites e, de manhã, pestanas com ar de extensões - só que “naturais”. O hábito caseiro instalou-se em muitas casas de banho, por vezes até entre adolescentes. Os vídeos de antes/depois somam milhões de visualizações e os frascos de óleo desaparecem das prateleiras das farmácias. Enquanto influenciadoras garantem que é “100% seguro”, oftalmologistas levantam o dedo em sinal de alerta. Dois universos que se observam, mas raramente conversam.

Entre a promessa de pestanas de boneca e relatos que acabam em urgências de oftalmologia, há uma pergunta incómoda que se impõe: até onde faz sentido arriscar os olhos por mais alguns milímetros?

Porque é que o óleo de rícino nas pestanas ficou viral - e o que não aparece no vídeo

O que chama primeiro a atenção nos vídeos de crescimento de pestanas não é o produto: é a intimidade. Uma rapariga de hoodie largo, cabelo apanhado, câmara muito perto, a filmar-se por cima do lavatório. Molha um cotonete num frasco pequeno de óleo dourado, desenha uma linha junto às pestanas e depois encara a lente como quem diz: “Podes confiar em mim.” Quase dá a sensação de estar ali, na casa de banho dela, a partilhar um segredo entre amigas.

Essa proximidade funciona. Faz o óleo de rícino parecer menos uma escolha “química” e mais um ritual confortável - quase como uma máscara caseira que a avó já teria usado. O problema é que a câmara apanha o brilho, não as consequências. Não se vêem as noites de ardor, as consultas de urgência, nem a visão que vai ficando enevoada. As redes sociais são óptimas a mostrar a passagem do “antes” para o “depois”; raramente se demoram no “durante”.

Em 2024, a hashtag #oleodericinonaspestanas acumulou milhões de visualizações no TikTok e no Instagram. Há criadores que garantem ter duplicado o comprimento das pestanas em um mês. Uma estudante de 22 anos com quem falei em Londres contou-me que começou a usar óleo de rícino depois de um desastre com extensões de pestanas. Ficou com falhas e sentia-se “nua” sem rímel. Ao fim de três semanas a aplicar todas as noites, achou que as pestanas pareciam mais densas. Mas também admitiu que acordou várias vezes com os olhos colados e irritados. Mais tarde, o médico de família disse-lhe que tinha desenvolvido uma blefarite ligeira - uma inflamação das pálpebras que pode estar associada a óleos e resíduos acumulados na linha das pestanas.

Os médicos estão a ver o outro lado desta tendência. Oftalmologistas na Europa e na América do Norte referem um aumento discreto de doentes que colocam óleos vegetais junto às pestanas, alguns com vermelhidão, reacções alérgicas ou glândulas de Meibómio obstruídas. Estas glândulas produzem a componente oleosa das lágrimas. Quando entopem, o filme lacrimal fica instável e podem surgir olho seco e irritação crónica. O óleo de rícino, por si só, não é “o vilão absoluto”: existe em algumas fórmulas oftálmicas e de cuidados de pele, mas em versões controladas, filtradas e rigorosamente doseadas. O problema não é a existência do óleo de rícino; é o local onde é aplicado, a quantidade usada e, sobretudo, a falta de noção do risco.

Como reduzir riscos se ainda assim quiser usar óleo de rícino nas pestanas

Se estiver decidida a experimentar, comece por encarar o óleo como aquilo que é: uma substância externa a ser aproximada de uma das superfícies mais delicadas do corpo. A opção menos arriscada tende a ser um óleo de rícino prensado a frio, sem hexano, idealmente comprado em farmácia ou numa marca credível que identifique claramente o uso cosmético. Não reutilize um frasco aleatório de óleo de cozinha. Em vez de mergulhar directamente no frasco principal, verta uma quantidade mínima para um recipiente limpo. Uma película muito fina na zona superior, junto às raízes das pestanas, já é mais do que suficiente. Se ficar um “verniz” visível e brilhante, quase sempre significa excesso.

Antes de aproximar o produto dos olhos, faça um teste numa pequena área de pele - por exemplo, atrás da orelha ou na lateral do pescoço - durante 24 a 48 horas. É aborrecido, sim. E sejamos honestos: quase ninguém faz isto de forma consistente. Mas se a pele reagir longe dos olhos, imagine o que pode acontecer na margem palpebral. Se avançar, aplique à noite, depois de remover a maquilhagem e lavar o rosto. Mantenha o produto estritamente na base das pestanas, nunca na linha de água. Se a visão ficar turva após aplicar, é um sinal de que o óleo está a chegar à superfície ocular - e não apenas a “condicionar” as pestanas.

Muita gente interpreta irritação como “prova” de que está a resultar. Vê alguma vermelhidão ou formigueiro e pensa: os folículos estão a acordar. Na prática, esse desconforto pode ser o início de uma alergia ou de uma alteração do filme lacrimal. Oftalmologistas alertam que a exposição repetida a qualquer óleo não estéril na linha das pestanas pode modificar o funcionamento das pálpebras e a forma como as lágrimas se distribuem. Há utilizadores que acabam com olho seco persistente - aquela sensação de areia debaixo das pálpebras ao longo do dia. Ao contrário de uma unha partida, não é algo que se esqueça numa semana. Além disso, quando o óleo fica espesso nas pestanas, tende a agarrar pó, pigmentos de maquilhagem e bactérias, aumentando a probabilidade de inflamação das pálpebras.

“O teu desejo de ter pestanas mais cheias é legítimo”, diz a Dra. Emma Collins, oftalmologista em Manchester. “Mas tens de te fazer uma pergunta directa: estou disposta a trocar uma visão confortável e nítida por um pouco mais de densidade na linha das pestanas? Os olhos não são uma zona onde truques de beleza por tentativa-e-erro sejam inofensivos.”

Para quem quer uma rotina mais prudente, seguem algumas alternativas e hábitos realistas que especialistas costumam apoiar:

  • Escolher um rímel com ingredientes condicionadores e removê-lo com cuidado, usando um desmaquilhante à base de água.
  • Preferir séruns para pestanas testados clinicamente e com dados de segurança publicados, em vez de óleos “da prateleira da cozinha”.
  • Dar às pestanas dias de descanso sem rímel e sem ferramentas de calor, para diminuir a quebra.

Tendências de beleza vs. saúde ocular: onde traçar o limite

A maioria das tendências não parece perigosa enquanto estamos dentro dela. O óleo de rícino nas pestanas, hoje, lembra um pouco a descoloração caseira do cabelo nos anos 2000: toda a gente tinha uma história, a maioria safava-se e alguns ficavam com marcas. A diferença aqui é o órgão com que se está a apostar. Pestanas mais ralas frustram; olhos que ardem sempre que apanha vento mudam a vida diária. O lado sedutor desta moda é a sensação de esforço mínimo: um frasco barato, um gesto nocturno e a promessa de acordar “mais bonita”. Sem clínica, sem receita, sem sala de espera.

Há ainda uma camada mais profunda que raramente é discutida. Pestanas volumosas tornaram-se um padrão silencioso, sobretudo para mulheres que aparecem em vídeo o dia inteiro. Reuniões por Zoom, aplicações de encontros, publicações no Instagram - os olhos estão constantemente em exposição. Os atalhos com óleo de rícino parecem uma forma de “acompanhar” sem admitir que se está a perseguir um ideal. Partilhar o ritual online dá-lhe um verniz de empoderamento. No entanto, muitas pessoas que o usam com regularidade confessam, fora da câmara, que também têm medo de parar - convencidas de que as suas pestanas “reais” já não chegam. Esse vínculo emocional quase nunca aparece em tutoriais polidos.

Talvez a verdadeira questão não seja se o óleo de rícino é totalmente mau ou perfeitamente seguro. É perceber se nos sentimos confortáveis em deixar que truques virais decidam que riscos são aceitáveis para o nosso corpo. Pode optar por ignorar o óleo de rícino e ficar pelo rímel e pelo curvador. Pode falar com um oftalmologista e experimentar um sérum regulamentado. Pode continuar a testar, mas com quantidades realmente mínimas, com testes prévios e com a promessa de que qualquer ardor, vermelhidão ou visão turva significa parar. A beleza sempre brincou com a fronteira entre desejo e perigo. Esta tendência, em particular, desenha essa linha exactamente sobre os olhos.

Ponto-chave Detalhes Porque importa para quem lê
Onde aplicar o óleo de rícino O óleo nunca deve ser colocado directamente na linha de água nem dentro do olho. Uma película fina junto às raízes externas das pestanas já é o máximo - e muitos médicos preferem que nem sequer toque na margem da pálpebra. Quanto mais perto estiver da superfície do olho, maior é o risco de ardor, visão turva e infecções. Saber “onde parar” ajuda a não transformar um teste cosmético num problema médico.
Qualidade e tipo de produto Óleo de rícino prensado a frio, sem hexano, comprado em farmácia ou numa marca cosmética reconhecida, tem menor probabilidade de conter irritantes. Evite versões perfumadas, misturas com aditivos desconhecidos ou frascos destinados a uso industrial ou apenas capilar. Nem todos os óleos de rícino são iguais. Uma fórmula mais “limpa” reduz a probabilidade de alergias e irritação das pálpebras, sobretudo numa pele fina e sensível.
Reconhecer sinais de perigo Vermelhidão persistente, ardor, pestanas com crostas ao acordar, secura intensa ou qualquer alteração da visão são sinais de alerta. Pare de usar e procure aconselhamento médico, em vez de “aguentar” a reacção. Identificar problemas cedo pode evitar situações crónicas como blefarite ou olho seco prolongado, muito mais difíceis de tratar do que uma simples irritação cutânea.

Perguntas frequentes

  • O óleo de rícino consegue mesmo fazer as pestanas crescerem mais? Não há evidência clínica robusta de que o óleo de rícino simples estimule directamente os folículos das pestanas como um tratamento sujeito a receita. Algumas pessoas notam pestanas com aspecto mais cheio porque o óleo as envolve e condiciona, reduzindo a quebra. Isso pode criar uma impressão de crescimento, mas não é o mesmo que uma estimulação comprovada do folículo.
  • É mais seguro usar óleo de rícino num tubo de rímel com escovinha? Encher um tubo antigo de rímel com óleo pode introduzir bactérias e incentiva a aplicação em excesso. Um cotonete limpo ou uma micro-escova com uma gota mínima de óleo fresco é mais seguro do que mergulhar uma escovinha num recipiente reutilizado e difícil de higienizar.
  • Com que frequência é “demais” usar óleo de rícino nas pestanas? Usar todos os dias durante semanas aumenta o risco de irritação e de obstrução das glândulas. Muitos especialistas em olhos dizem que, se insistir, deve limitar a ciclos curtos - por exemplo, duas ou três noites por semana, por um período limitado - e parar ao primeiro sinal de desconforto.
  • Os séruns para pestanas são mais seguros do que o óleo de rícino? Não necessariamente. Alguns séruns contêm análogos de prostaglandinas que podem escurecer as pálpebras ou causar irritação. A diferença é que séruns de marcas credíveis têm, pelo menos, testes, listas de ingredientes claras e instruções de utilização. Ler tudo com atenção - e falar com um oftalmologista se tiver olhos sensíveis - dá-lhe uma base mais informada do que confiar em óleos caseiros.
  • Qual é a forma mais segura de cuidar de pestanas finas ou danificadas? Remover maquilhagem com suavidade, evitar rímel à prova de água todos os dias, fazer pausas nas extensões e nos curvadores aquecidos e cuidar da saúde geral (sono, nutrição, stress) ajudam mais do que um único “produto milagroso”. Se a queda for súbita ou acentuada, uma avaliação médica pode excluir causas hormonais ou auto-imunes antes de apostar em truques arriscados.

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