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Treinar em jejum: queima de gordura e o que diz a ciência

Jovem com roupa desportiva a amarrar os ténis numa cozinha com prato de fruta e bebida quente à frente.

Soa a “turbo” para queimar gordura - mas, na prática, a história é bem mais complexa.

Quem corre cedo no parque vê o cenário repetido: pessoas a suar de estômago vazio, convencidas de que assim vão perder sobretudo a gordura da barriga. Muitos coaches defendem a estratégia e as redes sociais alimentam o entusiasmo. Mas o que acontece, de facto, no organismo quando treinamos em jejum - e isso traduz-se mesmo em mais perda de gordura ou apenas em frustração?

Porque é que fazer exercício de estômago vazio parece tão lógico ao início

A lógica biológica do treino em jejum parece simples e convincente. Depois de uma noite a dormir, as reservas de hidratos de carbono nos músculos e no fígado ficam parcialmente baixas. Como há menos açúcar imediatamente disponível, é tentador concluir que o corpo recorrerá mais à gordura corporal como fonte de energia.

Ao mesmo tempo, de manhã e sem pequeno-almoço, a insulina tende a estar baixa. Em condições normais, a insulina favorece processos de armazenamento; com pouca insulina a circular, as reservas de gordura, em teoria, ficam mais fáceis de mobilizar. É precisamente nesta “janela” que muitos adeptos do cardio antes do pequeno-almoço apostam.

"Em jejum, o corpo usa de facto mais gordura - mas isso ainda está longe de significar que, no fim, desapareça mais gordura."

A investigação mostra: quem treina sem comer antes utiliza, por minuto, uma percentagem maior de gordura como combustível do que após um pequeno-almoço. A partir daqui nasceu a ideia do “cardio milagroso em jejum”. O problema é que, na maior parte das vezes, mede-se apenas essa sessão isolada - não o balanço energético do dia inteiro.

Queimar mais gordura no momento não é o mesmo que ter menos gordura corporal

O erro central é confundir a gordura usada durante o treino com a redução real do tecido adiposo. Só que o corpo funciona 24 horas por dia, não apenas durante 30 minutos na elíptica.

Se de manhã, ao correr, a utilização de gordura aumenta, muitas vezes o organismo compensa mais tarde e passa a usar relativamente mais hidratos de carbono como energia. É uma tentativa de manter o equilíbrio interno. No fim de contas, o que conta é quantas calorias se gastam ao longo do dia e quantas entram através da alimentação.

E há outro ponto prático: quem, após o treino, “se permite um mimo” por achar que a sessão foi dura pode anular rapidamente a vantagem. Um brunch farto ou vários snacks no escritório fecham facilmente - ou até ultrapassam - o défice criado pelo exercício.

"A física por trás disto é implacável: só um défice calórico sustentado faz as reservas de gordura encolherem lentamente - independentemente da hora a que se treina."

Menos potência, menos calorias: quando treinar em jejum se transforma num travão

Com o depósito vazio ninguém anda mais depressa. Ao começar sem energia disponível, regra geral, o desempenho cai. Nota-se na falta de força nas pernas, na fadiga mais precoce e numa intensidade de treino mais baixa.

Um exemplo ajuda a perceber a diferença:

  • Corrida leve em jejum: cerca de 300 quilocalorias, das quais ~60 % vêm da gordura → aprox. 180 quilocalorias de gordura
  • Corrida mais intensa após uma pequena refeição: cerca de 500 quilocalorias, das quais ~40 % vêm da gordura → aprox. 200 quilocalorias de gordura

Ou seja: mesmo com uma percentagem inferior de gordura, a quantidade absoluta de gordura usada pode ser maior - e o gasto total é claramente superior. E quem treina assim com regularidade melhora mais depressa a condição física e a massa muscular, o que, a longo prazo, pode elevar o metabolismo basal.

Quando o treino é constantemente limitado por hipoglicemia, tonturas ou sensação de fraqueza, o progresso estagna. Os corredores ficam presos ao mesmo ritmo, e no ginásio as cargas deixam de subir. Um “truque” bem-intencionado para queimar gordura acaba por travar a evolução.

O efeito boomerang: a fome intensa anula o benefício do treino

O organismo não aprecia falhas energéticas. Treinar cedo e em jejum pode ser um estímulo forte para o centro da fome no cérebro. E, algumas horas depois, isso muitas vezes volta em força.

O guião é frequente: fome enorme, snacks rápidos, pastelaria doce no escritório ou um pequeno-almoço XXL “porque já fiz exercício”. A isto soma-se a componente psicológica da recompensa: “Fui disciplinado, mereço.”

O resultado é simples: as calorias extra ingeridas podem exceder as calorias gastas no treino. Em termos matemáticos, teria sido melhor comer normalmente e não treinar em jejum.

Há ainda o chamado efeito Afterburn (EPOC). Depois de sessões muito intensas, o gasto energético mantém-se elevado durante horas. Só que essa intensidade é mais difícil de atingir com o estômago vazio. Quem faz apenas um trote moderado em jejum pode estar, na prática, a abdicar de um consumo adicional de calorias que viria a seguir.

Hormonas de stress, perda de músculo e riscos menos óbvios

Treinar sem energia disponível é, para o corpo, um factor de stress. O cortisol aumenta para ajudar a manter a capacidade de esforço. No curto prazo, isto não é um problema. Mas, se o treino em jejum se tornar uma estratégia permanente, níveis de cortisol cronicamente elevados podem favorecer a acumulação de gordura na zona abdominal e a retenção de água nos tecidos. No espelho, o corpo pode parecer menos definido - apesar de muita disciplina.

Há ainda um ponto importante para quem quer não só pesar menos, mas também ter um aspecto mais firme e musculado: se faltarem reservas de hidratos de carbono e o esforço se prolongar, o corpo pode começar a recorrer a aminoácidos provenientes do músculo para produzir energia. Isso traduz-se numa perda muscular gradual.

"Se a massa muscular for regularmente “queimada”, o gasto energético em repouso desce - precisamente o contrário do que faz sentido para perder gordura a longo prazo."

Menos músculo significa que o organismo gasta menos energia mesmo sentado ou a dormir. Qualquer dieta futura torna-se mais difícil, e qualquer deslize no prato reflecte-se mais depressa na balança e nas medidas.

O que realmente decide a perda de peso

Discutir ao detalhe qual combustível é usado pode desviar a atenção do essencial: o que determina o resultado é se, no final do dia ou da semana, existe défice calórico. Quem gasta mais do que consome perde gordura aos poucos. Quem come mais do que queima engorda - mesmo correndo todos os dias em jejum.

Treinar em jejum pode ajudar de forma indirecta se levar a uma ingestão total mais baixa, por exemplo, em estratégias de jejum intermitente. Nesse caso, o efeito vem da menor quantidade de comida, não de um suposto “turbo” do metabolismo da gordura.

Comer uma banana ou um iogurte pequeno antes do treino não estraga a forma. Pelo contrário: mais energia costuma significar mais calorias gastas e um estímulo de treino mais forte para a musculatura e para o sistema cardiovascular.

Para quem é que treinar sem pequeno-almoço pode fazer sentido - e para quem não

O treino em jejum não é um “bicho-papão”; apenas é vendido, muitas vezes, como uma fórmula milagrosa. Há quem se sinta bem assim: acorda com boa energia, não gosta de treinar com sensação de estômago cheio e aprecia o sossego da manhã. Para essas pessoas, uma corrida moderada ou uma caminhada sem pequeno-almoço pode funcionar.

Já quem tem tendência para tonturas, crises de enxaqueca ou sente frequentemente o sistema circulatório “a falhar” não deveria insistir por princípio. Um snack pequeno antes pode ser suficiente para tornar o treino mais seguro e mais eficaz.

Dicas práticas para um treino matinal inteligente

  • Em treinos até cerca de 45 minutos e a um ritmo muito leve, o treino em jejum pode resultar em pessoas saudáveis.
  • Para intervalos, treinos intensos ou sessões pesadas de força, compensa fazer um pequeno snack com hidratos de carbono antes.
  • Se tende a ter fome intensa, planeie o pequeno-almoço pós-treino com intenção, em vez de decidir no impulso.
  • Inclua treino de força com regularidade para manter ou ganhar massa muscular - isso ajuda a estabilizar o gasto energético.
  • Esteja atento a sinais de alarme: tonturas fortes, tremores, náuseas ou fraqueza extrema são um sinal claro para parar.

Alguns mal-entendidos comuns sobre “queima de gordura”

Muitos termos do mundo do fitness geram confusão. A “zona de queima de gordura” na passadeira refere-se apenas a uma faixa de pulsação em que, proporcionalmente, se usa mais gordura. Isso não significa, por si só, que essa zona seja a melhor para emagrecer. Para a balança, interessa a energia total gasta - não apenas a percentagem proveniente da gordura.

Uma confusão semelhante aparece quando se fala de um corpo “definido”: a definição surge quando se juntam duas condições - massa muscular suficiente e uma percentagem de gordura corporal moderada. Apenas restringir comida e correr em jejum pode reduzir ambos, sobretudo se houver perda muscular. Faz mais sentido combinar treino de força, ingestão adequada de proteína e um défice calórico ligeiro.

Para quem quer integrar o exercício no dia a dia a longo prazo, costuma resultar melhor adoptar estratégias que sejam sustentáveis e confortáveis. Treinar de manhã antes do pequeno-almoço, ao almoço na pausa ou à noite depois do trabalho acaba por ser secundário - desde que, ao olhar para a semana, a conta entre movimento e alimentação aponte para o défice.


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