Saltar para o conteúdo

Vitamina D e protetor solar: porque pode continuar com deficiência mesmo no verão

Homem preocupado lê embalagem de medicação junto a janela com plantas e vista urbana ao fundo.

Pensaria que um verão britânico - quando finalmente aparece - resolve quase tudo. As camisolas voltam para o armário, as esplanadas enchem, e de repente andamos todos lá fora a “recarregar a vitamina D” como painéis solares com pernas. A minha amiga Emma foi exactamente essa pessoa este ano: caminhadas todas as manhãs, disciplinadíssima com o SPF 50, com ar virtuoso e um bocadinho convencida. Até ao dia em que o médico de família lhe telefonou com os resultados das análises e usou a palavra “deficiente”. Em Agosto. A meio de uma onda de calor. Ela ficou a olhar para o telemóvel a pensar: como é que ainda estou com níveis baixos?

Se anda a besuntar-se com protetor solar de factor alto como um adulto responsável e mesmo assim acaba com deficiência de vitamina D, não está sozinho. Aquela quebra de energia ao fim da tarde, o humor ligeiramente frágil que não passa, as dores musculares que atribui a “estar a ficar mais velho” - é fácil ignorar. Mas há algo discretamente inquietante quando o corpo vai murmurando que falta qualquer coisa e os números confirmam. O mais estranho é que pode estar a fazer precisamente aquilo que lhe disseram que era “o certo”. E é aí que a coisa fica interessante.

A mentira de verão em que gostamos de acreditar

No Reino Unido há um mito acolhedor que nos acompanha: chega o verão, os dias alongam, e os problemas com a vitamina D resolvem-se por magia. Imaginamo-nos a apanhar sol em churrascos, a passear o cão com luz dourada, a absorver raios como uma planta à janela. Só que, na prática, muito desse tempo passa-se à sombra, com nuvens, atrás de vidro, ou com SPF suficiente para sobreviver a uma visita a Mercúrio. E depois fingimos surpresa quando uma análise em Setembro mostra que continuamos a raspar o fundo do tacho.

Quase toda a gente já teve aquele momento em que o médico de família pergunta: “Apanha muito sol?” e a resposta automática é “Sim, imenso”, antes de o cérebro alcançar a boca. Mas foi mesmo? Ou foi só correr da porta de casa para o carro, do escritório para a Pret, e convencer-se de que os dez minutos a pé até à estação contam como “muito sol”? A distância entre o que achamos que fazemos e o que acontece num dia normal de semana é maior do que gostamos de admitir. E a vitamina D mora exactamente nesse intervalo desconfortável.

Há também a ideia não dita de que qualquer dia quente equivale a vitamina D em força. Uma tarde enevoada, de braços ao léu, pode saber a verão; mas se o índice UV estiver baixo - ou se a pele estiver tapada com factor 50 - o corpo pode estar a produzir muito pouco. É como achar que estar na mesma sala que um ginásio vai tonificar os músculos. É reconfortante. Só que não é assim que o corpo funciona.

Como o protetor solar altera, em silêncio, a equação da vitamina D

Aqui vem a parte que parece injusta: aquilo que faz para se proteger do cancro da pele também pode travar os raios UVB de que a pele precisa para produzir vitamina D. Protetores com SPF alto, usados de forma correcta e reaplicados com frequência, conseguem reduzir drasticamente a produção de vitamina D. É esse o objectivo. O SPF 50 não “filtra só um bocadinho”; bloqueia a grande maioria dos UVB que queimam - e é justamente esse comprimento de onda que dá o pontapé de saída à fábrica de vitamina D na pele. Não há nada de errado consigo. O seu protetor solar é que é, simplesmente, muito bom no que faz.

A maior parte de nós não aplica protetor como manda o rótulo - dois “comprimentos de dedo” para o rosto, cerca de um copo de dose para o corpo, reaplicação a cada duas horas, e mais ainda se nadar ou transpirar. Sejamos honestos: quase ninguém cumpre isto todos os dias. Mas se for uma dessas raras pessoas que chegam perto - o grupo aplicado, de pele clara, anti-rugas, que não deixa o nariz ver a luz do dia - a produção de vitamina D pode levar um golpe sério, sobretudo num país onde o sol já é poupado durante metade do ano.

O rosto, os braços e as zonas que nunca vêem luz

Há um pormenor que pesa: onde é que põe o protetor. Muitos de nós aplicam SPF 50 na cara diariamente (por envelhecimento cutâneo, mesmo que não por cancro), e depois talvez braços e decote em dias mais luminosos. Se o rosto está sempre coberto e, no trabalho, costuma usar mangas compridas, sobra pouquíssima pele disponível para fazer o esforço principal. Um bocadinho de pulso exposto não vai, por milagre, subir os valores - por mais fiel que seja a caminhada até ao café.

Para quem se cobre por motivos culturais, pessoais ou médicos, este efeito é ainda mais forte. Alguém que use mangas compridas e cobertura de cabeça, além de protetor de factor alto, pode passar horas ao ar livre e, mesmo assim, produzir muito pouca vitamina D. O sol está lá. O calor também. Mas a pele e os raios quase não se encontram da forma necessária.

Porque é que ainda se sente cansado quando o céu está azul

Há qualquer coisa particularmente irritante em sentir-se em baixo quando, finalmente, o tempo ajuda. No inverno, espera-se aquela tristeza sazonal, a lentidão pesada de Janeiro, a escuridão às 16h que dá vontade de hidratos de carbono e pijama. Em Julho, quando a tarde o apanha a arrastar-se como se o cérebro estivesse a atravessar leite-creme, parece errado. E começa a culpar o trabalho, o sono, o telemóvel - tudo menos a hormona que está discretamente ligada ao humor e à energia.

A vitamina D não serve apenas para os ossos. Intervém na função imunitária, na força muscular, na inflamação e até na forma como o cérebro vai funcionando. Níveis baixos podem parecer um cansaço difuso, uma preensão mais fraca, mais constipações, ou uma espécie de “achatamento” persistente que não sabe nomear. Não é uma doença dramática, de novela. É só a vida a sentir-se mais pesada do que devia. Quando ouve “deficiência”, pode imaginar raquitismo num livro de História vitoriana - não uma pessoa de 35 anos, cansada, a fazer scroll no sofá.

E ainda há uma vergonha subtil que aparece sem pedir licença. Como é que se fica “baixo” em sol num mundo com parques abertos e pores do sol no Instagram, e com conteúdo interminável de bem-estar a mandar “ir mais lá para fora”? Parece que está a falhar numa coisa básica, como não beber água suficiente ou continuar a carregar no adiar do despertador três vezes. Pode desvalorizar, seguir em frente, prometer que “qualquer dia compra vitaminas” - e ficar, silenciosamente, preso ao mesmo sítio.

O problema da latitude britânica de que quase ninguém fala

Há uma palavra aborrecida que manda nisto tudo: latitude. O Reino Unido fica suficientemente a norte para que, aproximadamente de Outubro a Março, a luz solar não tenha UVB suficiente para a pele produzir vitamina D - por mais corajosamente que esteja cá fora de calções. Podia fazer banhos de sol ao meio-dia em Edimburgo, em Novembro, e o corpo produziria praticamente nada. O sol existe, mas o ângulo está errado para a química necessária.

Ou seja, chegamos à primavera já em desvantagem. Quando Maio ou Junho aparecem, muita gente vem desgastada do inverno. E depois entra o verão: uma missão de resgate, mas também uma corrida contra o tempo. Se os fins-de-semana estão cheios, os dias úteis passam-se quase todos dentro de portas, e os poucos momentos lá fora são vividos debaixo de SPF 50, talvez não consiga recuperar os níveis tanto quanto esperava. O depósito nunca enche completamente.

Nuvens, trabalho e o sol “real” do dia-a-dia

Depois há a nebulosidade, o tempo imprevisível e a vida como ela é. Sim, existem dias quentes, mas também há semanas inteiras de cinzento e vento com chuviscos em que o “verão” mal conta. Muita gente trabalha durante as horas de maior UVB, presa a luzes fluorescentes e ar condicionado, e só sai quando o sol já está a descer. Quinze minutos de calor ao fim do dia na varanda sabe bem, mas para produzir vitamina D não se aproxima do que seria uma caminhada ao meio-dia.

É aqui que o protetor solar deixa de ser só um detalhe. Para quem faz turnos longos ou trabalha de noite e só vê sol a horas estranhas, aquela pequena janela de exposição ao meio-dia pode ser a única oportunidade real de a pele fabricar vitamina D. Se esse momento é sempre totalmente bloqueado por SPF alto e roupa, a conta começa a dar para o torto. Fica com toda a redução de risco para a pele, mas com pouca “compensação” para ossos, músculos e humor.

Dá para ter os dois: protecção solar forte e vitamina D decente?

Esta é a pergunta que fica a pairar na cabeça de muita gente: tenho de escolher entre evitar rugas e evitar deficiência? A resposta curta é não - mas pode ter de ajustar a imagem mental do que é ser “seguro ao sol”. Os dermatologistas têm razão em insistir no SPF; as taxas de cancro da pele estão a subir, e queimaduras na infância ou queimaduras repetidas na idade adulta são um problema real. Ainda assim, muitos especialistas também reconhecem, com alguma discrição, que um pouco de sol sem proteção, em pele descoberta e à hora certa, pode ajudar a vitamina D.

Algumas pessoas optam por um meio-termo: 10–15 minutos de sol ao meio-dia em áreas relativamente grandes, como braços e parte inferior das pernas, antes de aplicar protetor - sobretudo no fim da primavera e início do verão - e, a partir daí, protegem-se a sério o resto do dia. Não é um convite a ficar estendido até queimar; é uma janela pequena e medida. Outras pessoas, em especial quem tem pele muito clara ou sensível, evitam isto por completo e vão directamente para suplementos, deixando que os comprimidos substituam a luz solar no trabalho pesado. Ambas as opções fazem sentido; o que interessa é haver intenção, não adivinhação.

Suplementos, alimentação e o plano B silencioso

Só com alimentação raramente se consegue corrigir uma deficiência verdadeira de vitamina D, mas ajuda a “manter a máquina”. Peixe gordo, gema de ovo, fígado, margarinas e cereais fortificados contribuem com pequenas quantidades. Para muita gente, o que muda o jogo é um suplemento diário, sobretudo em países como o Reino Unido, onde as autoridades de saúde já recomendam suplementação nos meses mais escuros. Uma cápsula ou um spray simples pode apoiar discretamente os níveis, enquanto continua a ser rigoroso com o seu SPF.

Há algo estranhamente tranquilizador em saber que não precisa de acertar nisto todos os dias. Pode usar SPF 50 no rosto durante todo o ano, continuar a preferir a sombra, evitar queimaduras a todo o custo, e deixar que um comprimido pequeno faça o resto. Para quem cobre a maior parte da pele, ou para quem tem pele mais escura e, por isso, produz vitamina D mais lentamente, isto não é “batota”; é uma solução prática. O verdadeiro risco não está nos suplementos, usados com bom senso - está em passar anos a encolher os ombros e assumir que o sol de verão resolve tudo por magia, quando na realidade não resolve.

Os sinais de aviso discretos que talvez esteja a ignorar

Nem toda a gente com vitamina D baixa se sente doente de forma evidente. Alguns sentem-se apenas… estranhos. Pode notar que as pernas doem após uma caminhada curta, que a força de preensão diminuiu ao pegar em sacos de compras, ou que se cansa mais depressa do que antes. Talvez tenha constipações frequentes, ou o humor desça sem motivo claro, mesmo quando, no papel, a vida está bem. É fácil arquivar isto em “stress” ou “idade”, sobretudo quando ninguém à sua volta parece alarmado.

E depois chega aquela conversa ligeiramente desconfortável com o médico de família, depois de umas análises de rotina. Podem surgir frases como “um pouco abaixo do ideal” ou “queremos suplementar durante algum tempo”. A maioria das pessoas acena, leva a receita de dose alta, promete a si própria que vai “ir mais para a rua”, e sai do consultório para regressar ao padrão de sempre. Não há drama, não há sirenes - apenas uma bifurcação silenciosa em que ou presta atenção, ou continua a deixar andar.

Uma coisa que muitas vezes passa ao lado é a lentidão com que isto se instala. Ninguém acorda de manhã com “deficiência de vitamina D” escrito na testa. Podem ser meses ou anos de valores no limite, misturados com escolhas de estilo de vida como uso constante de SPF alto e vida em interiores, até que se cruza a linha. Quando finalmente sente que algo não bate certo, os hábitos já são tão normais que ficam invisíveis: o trajecto casa-trabalho, o escritório, o protetor, a sombra, as noites dentro de casa. A história vai-se escrevendo enquanto não está a olhar.

Repensar o que é, afinal, um “sol saudável”

Há uma camada emocional nisto tudo que vale a pena dizer em voz alta. Muitos de nós usam protetor de factor alto por medo: medo de queimar, de envelhecer, daquela pinta suspeita que vamos vigiando ao espelho. Alguns viram alguém de quem gostam passar por cancro da pele, ou já fizeram uma biópsia, e o frasco de SPF torna-se um escudo. Ouvir que esse mesmo escudo pode estar a empurrar a vitamina D para baixo soa quase a traição - como se os conselhos de saúde se estivessem a contradizer outra vez.

Talvez a resposta não passe por escolher lados - protetor versus sol - mas por ficar mais curioso sobre a sua própria vida. Com que frequência está mesmo ao meio-dia, com alguma pele descoberta, antes de pegar no frasco? Sabe qual foi o seu último valor de vitamina D, ou está a adivinhar com base no quão “ao ar livre” parece o seu feed esta semana? Uma análise, um suplemento pequeno, alguns minutos de sol com intenção, e SPF consistente a seguir - nada disto é dramático. É apenas uma versão mais tranquila e mais honesta de “ser saudável” do que viver de ideias vagas e títulos meio lembrados.

Da próxima vez que estiver numa esplanada a sentir o calor nos braços e reparar naquela risca branca de protetor que falhou junto ao pulso, talvez pense no que a sua pele está a fazer por baixo da superfície. Não apenas a envelhecer, não apenas a ganhar sardas, mas a tentar produzir uma hormona de que o corpo inteiro depende em silêncio. Pode proteger a pele e, ainda assim, perguntar-se se a sua vitamina D precisa de uma ajuda. Isso não é vaidade nem exagero; é a atenção adulta que os nossos verões cheios de sol - e cobertos de protetor - raramente recebem.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário