Saltar para o conteúdo

Gases ao caminhar: peidos e flatulência - o que é normal

Mulher com imagem do sistema digestivo sobreposta, a caminhar num parque numa manhã soalheira.

Quase não há assunto mais embaraçoso.

Quem, ao passear ou no caminho para o trabalho, dá por si com gases com mais frequência do que gostaria, faz rapidamente a pergunta: isto ainda é normal - ou haverá algo de doença por trás? Na maioria das vezes, a resposta está algures no meio. O organismo dá sinais que vale a pena escutar, sem necessidade de entrar em pânico.

Porque é que, ao caminhar, nos dá vontade de largar gases

A flatulência - isto é, a saída de gases intestinais pelo ânus - é um processo completamente normal. Ainda assim, muitas pessoas notam que, ao caminhar, os «puns» aparecem mais vezes. Há várias explicações para isso.

O movimento põe o intestino a trabalhar

Quando estamos parados, sentados ou de pé, o gás pode ficar acumulado em certos segmentos do intestino. Assim que começamos a andar, o intestino entra literalmente em movimento: a musculatura intestinal contrai-se com mais intensidade, o conteúdo desloca-se e os gases descem - acabando por sair sob a forma de flatulência.

A actividade física funciona como uma massagem suave na barriga: gases que antes «ficavam presos» ganham caminho para fora.

Além disso, ao caminhar é comum respirarmos mais fundo e com maior amplitude; o diafragma mexe-se mais. Essa alteração muda as pressões dentro do abdómen, facilitando ainda mais a deslocação dos gases.

Como é que os gases intestinais se formam

O ar na barriga não vem apenas de «engolir ar». Uma parte significativa forma-se no cólon (intestino grosso):

  • Hidratos de carbono não digeridos (por exemplo, fibra alimentar) chegam ao intestino grosso.
  • Aí, as bactérias degradam essas substâncias.
  • Como subproduto, são libertados gases - entre eles dióxido de carbono, hidrogénio e metano.

Uma porção desses gases é reabsorvida e eliminada pela respiração; o restante sai do corpo como flatulência. É um mecanismo diário e acontece com toda a gente.

Quantos «puns» por dia ainda são normais?

De acordo com a medicina, uma pessoa saudável pode libertar gases, em média, até 20 vezes por dia sem que isso seja considerado patológico. E nem sempre nos apercebemos: muitos episódios são silenciosos e sem cheiro.

Por isso, mais importante do que a contagem exacta é perceber:

  • Os gases passaram a surgir, de repente, muito mais do que antes?
  • Há dor, cólicas ou alterações nas fezes a acompanhar?
  • Existe sensação marcada de pressão, náuseas ou gases com odor muito intenso?

Se a resposta for «sim» a algum destes pontos, faz sentido avaliar com mais atenção se o motivo está no estilo de vida, na alimentação ou numa condição clínica.

Causas frequentes: das leguminosas ao stress do escritório

Alimentos que tendem a produzir mais gases

Para muitas pessoas, a alimentação é o factor principal. Alguns alimentos são conhecidos por promoverem maior produção de gases no intestino grosso:

  • Leguminosas como feijão, lentilhas e grão-de-bico
  • Couves (por exemplo, couve branca, couve-de-bruxelas, brócolos)
  • Cebola, alho-francês e alho
  • Produtos integrais em grandes quantidades
  • Alimentos ricos em frutose (por exemplo, sumo de maçã, refrigerantes, fruta desidratada)
  • Polióis como sorbitol, xilitol ou manitol, presentes em pastilhas elásticas e rebuçados «sem açúcar»

Quem come este tipo de alimentos ao almoço ou a meio da tarde, muitas vezes nota os efeitos ao regressar a casa ou num passeio depois de comer - precisamente quando o movimento empurra o gás para baixo.

Engolir ar no dia a dia

Outra fonte importante é o ar engolido. Ele entra com refeições apressadas, ao falar enquanto se mastiga ou ao beber por palhinha, passando do estômago para o intestino. Bebidas gaseificadas intensificam o fenómeno. Parte do ar sai como arroto; o resto segue para o intestino e pode manifestar-se, ao caminhar, como flatulência.

Stress e nervosismo

O intestino é especialmente sensível a carga emocional. Muitas pessoas reconhecem a diarreia antes de um exame ou as cólicas em períodos exigentes. O aumento de gases também pode ser uma dessas respostas: a motilidade intestinal muda, a digestão fica mais irregular - e, no passeio até ao comboio, dá por si a sentir isso.

Quando a flatulência pode ser um sinal de alerta

Na maioria das situações, libertar gases ao caminhar é mais incómodo do que perigoso. Ainda assim, há contextos em que a flatulência pode indicar uma alteração do sistema digestivo.

Intolerâncias alimentares

Muito ar na barriga após certos alimentos pode apontar para intolerâncias, por exemplo:

  • Intolerância à lactose: o organismo não consegue degradar bem o açúcar do leite. É típico haver gases, dor abdominal e diarreia após leite, iogurte ou gelado.
  • Malabsorção de frutose: a frutose de fruta, sumos ou doces permanece no intestino e fermenta, levando a grande produção de gases.
  • Intolerância ao sorbitol: o sorbitol está em produtos light, pastilhas «sem açúcar» e alguns alimentos para diabéticos.

Se, nos passeios, os gases aparecem quase sempre depois de consumir determinados produtos, é útil manter um diário alimentar e discutir o padrão com uma médica ou um médico.

Síndrome do intestino irritável e outras doenças intestinais

Quando existem sintomas associados, a hipótese de haver algo mais ganha peso. São sinais de alerta, por exemplo:

  • dor abdominal persistente ou recorrente
  • mudanças no padrão intestinal (diarreia, obstipação ou alternância entre ambas)
  • perda de peso involuntária
  • sangue nas fezes ou fezes muito escuras
  • febre, sensação marcada de doença

Nestes casos, podem estar em causa, entre outras possibilidades, a síndrome do intestino irritável, doenças inflamatórias crónicas do intestino ou outras causas orgânicas. A partir daqui, o tema deve ser avaliado clinicamente.

Piadas sobre «puns» podem ser inofensivas - gases constantes e dolorosos não são e devem ser esclarecidos do ponto de vista médico.

O que pode fazer para reduzir os gases ao caminhar

Ajustar a alimentação de forma orientada

Se notar que determinados alimentos desencadeiam o problema, pode reduzir ou retirar esses itens durante uma a duas semanas, como teste. Um registo alimentar facilita a identificação de padrões. Medidas úteis incluem, por exemplo:

  • fazer as refeições com calma e mastigar bem
  • reduzir bebidas gaseificadas e bebidas muito açucaradas
  • diminuir porções de alimentos muito flatulentos e distribuí-los melhor ao longo do dia
  • aumentar a fibra gradualmente, em vez de mudar de um dia para o outro

Se quiser alterar a alimentação de forma significativa, é aconselhável fazê-lo com acompanhamento médico ou de profissionais de nutrição, para evitar carências.

Usar a actividade física com inteligência

Parece contraditório, mas é assim: o exercício pode desencadear gases no momento e, ao mesmo tempo, reduzir a sensação de inchaço a longo prazo. Actividade leve como caminhar, andar de bicicleta ou correr suavemente ajuda a manter uma função intestinal mais regular. Muitas pessoas referem que um pequeno passeio após comer diminui claramente a pressão abdominal.

Se já sabe que ao andar depressa o ar «foge» com facilidade, pode escolher percursos menos movimentados - o que também baixa o stress de ser «apanhado».

Cheiro, som e dor: o que os gases podem indicar

Nem toda a flatulência é igual. Há episódios ruidosos e outros quase imperceptíveis; alguns sem odor e outros muito intensos. Estas diferenças costumam reflectir processos distintos no intestino.

Característica Possível causa
Sem cheiro, mas mais frequente muito ar engolido, bebidas gaseificadas
Odor forte alimentação rica em proteína, certos legumes, segurar os gases durante muito tempo
Com dor aguda ar «preso», espasmo intestinal, possível intolerância
Início súbito, acompanhado de diarreia infecção, alimentos estragados, irritação intensa da mucosa intestinal

Quem, ao caminhar, sente repetidamente dores tipo cólica deve procurar avaliação médica, mesmo que os sintomas desapareçam depois.

Como lidar com o assunto com mais naturalidade

A vergonha tende a agravar a situação. Quando, por medo do barulho, se contrai a zona glútea, acaba por reter gases artificialmente. Isso pode provocar acumulação no intestino, aumentar a dor e fazer com que, mais tarde, saiam com mais força. Um certo grau de descontração é, de facto, mais saudável.

Podem ajudar pequenas estratégias do dia a dia, como:

  • ir à casa de banho pouco antes de compromissos importantes
  • no escritório ou no comboio, escolher lugares no corredor para poder levantar-se e mexer-se se for preciso
  • evitar calças apertadas na zona abdominal quando o intestino está mais sensível

Falar do tema com humor - mas sem falta de respeito - com amigas/os próximos, parceiro/a ou colegas pode aliviar a pressão. Muita gente descobre que quase todos passam pelo mesmo, só que quase ninguém comenta.

Quando o conhecimento técnico faz diferença

Termos como flatulência, intestino irritável ou malabsorção de frutose podem soar complicados, mas descrevem sensações que muitas pessoas reconhecem no quotidiano. Flatulência é simplesmente o gás intestinal que sai. A síndrome do intestino irritável agrupa queixas funcionais como gases, dor e irregularidade das fezes, nas quais, apesar dos sintomas, não se encontra uma causa orgânica clara. Já a malabsorção de frutose acontece quando o intestino delgado só consegue absorver frutose de forma limitada; o excesso chega ao intestino grosso, fermenta e provoca gases.

Compreender minimamente estes mecanismos ajuda a interpretar melhor os sinais do corpo. Um passeio em que, ocasionalmente, «algo se mexe» na barriga raramente é motivo de preocupação. Mas se os gases se tornarem constantes, afectarem a qualidade de vida ou vierem acompanhados de outros sintomas, vale a pena falar com a médica de família - mesmo que o tema seja embaraçoso.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário