O seu suor não tem cheiro - então porque é que haveria de ser tão complicado escolher entre os dois? Na verdade, é a sua pele que nota bem a diferença.
Se fica completamente perdido(a) quando chega ao corredor de desodorizantes/antitranspirantes no supermercado, é normal. As marcas fazem quase tudo para tornar a decisão mais difícil: marketing com ar pseudo-científico, selos pouco claros, promessas do tipo “frescura extrema durante 172 h”, embalagens que induzem em erro e slogans chamativos. No fim, muitas vezes escolhemos o stick ou o spray às cegas.
E isto acontece sem perceber a diferença real entre estas duas categorias de produtos, que não interagem de todo da mesma forma com o organismo. Afinal, ninguém compra um alimento sem saber se é doce ou salgado, nem toma um medicamento sem conhecer os efeitos. Então porque é que aceitamos esta confusão quando falamos de cosméticos que aplicamos todos os dias na pele? Vamos esclarecer.
Porque transpiramos e porque é que cheira mal?
Antes de pensar em “travar” a transpiração, vale a pena fazer justiça ao suor - porque, sem ele, não conseguiríamos viver. A transpiração é um sistema de arrefecimento por evaporação altamente eficiente. Em condições normais, o corpo elimina cerca de 0,5 litro de água por dia para manter a temperatura interna; esse volume aumenta muito com esforço físico ou durante ondas de calor.
A parte mais inesperada é que este suor é, no início, totalmente inodoro. O que muda tudo é a forma como as nossas “fábricas de suor”, as glândulas sudoríparas, se dividem em dois grandes grupos. As primeiras, as glândulas écrinas, estão espalhadas pela maior parte do corpo e libertam um líquido composto sobretudo por água e electrólitos, com função de regulação térmica. As segundas, as glândulas apócrinas, localizadas sobretudo nas axilas e na zona da virilha, tornam-se activas na puberdade e produzem uma secreção bem mais rica.
Esse composto mais oleoso, carregado de proteínas e lípidos, é um verdadeiro banquete para as bactérias que vivem na pele. Por isso, não é o suor que “cheira mal”; é a digestão feita por essas bactérias que liberta moléculas voláteis particularmente odoríferas.
O desodorizante: a contra-ofensiva química
Quando aplica um desodorizante, ele não vai reduzir o volume de suor: a transpiração continua a ocorrer e a chegar à superfície. O produto actua depois, para neutralizar o cheiro ou impedir que ele seja percebido pelo olfacto. É, portanto, uma acção “à superfície”, que combina vários tipos de compostos.
Em primeiro lugar, a maioria (se não a totalidade) inclui agentes antimicrobianos. Como são as bactérias que transformam o suor em mau odor, diminuir a sua presença nas axilas permite limitar drasticamente a produção de moléculas malcheirosas. Além disso, é frequente as marcas juntarem perfumes sintéticos, cuja função é tapar os odores que restam - para que nem você nem a pessoa ao seu lado no metro desmaie quando levanta o braço.
Alguns desodorizantes acrescentam ainda absorventes de odores (ricinoleato de zinco, talco, perlita, bicarbonato de sódio, etc.), que capturam fisicamente as moléculas voláteis antes de estas se dispersarem no ar. Outros mexem no “terreno”, ajustando o pH da pele com substâncias básicas ou ácidas, tornando as axilas numa zona hostil para as bactérias, que deixam de se multiplicar com eficácia.
O antitranspirante: um tampão
Ao contrário do desodorizante, que se foca em disfarçar ou controlar odores, o antitranspirante actua directamente na origem ao impedir fisicamente que o suor chegue à superfície da pele. Para isso, recorre a uma família de activos muito eficaz: os sais metálicos (cloridrato de alumínio, cloreto de alumínio ou compostos de zircónio-alumínio).
Depois de aplicado, estes sais entram em contacto com a humidade existente no canal das glândulas sudoríparas. Ao dissolverem-se, ligam-se às moléculas do suor e formam uma espécie de gel denso, criando um tampão temporário que obstrui os poros. O fluxo de transpiração fica interrompido e as bactérias à superfície deixam de ter acesso ao seu “banquete” proteico. Sem esse combustível, deixam de produzir odores.
É também aqui que marketing e ciência se confrontam com mais força. Provavelmente já viu embalagens a exibir com orgulho “sem sais de alumínio”. Esta desconfiança generalizada nasceu, no entanto, de um boato sem fundamento, originalmente difundido por uma fraude informática (uma mensagem falsa por e-mail que circulou no início dos anos 2000). Ao contrário do que se diz, a investigação científica assente em evidência indica que os antitranspirantes com alumínio são seguros e não apresentam riscos comprovados para a saúde.
As alternativas “naturais”: uma falsa boa ideia?
Com a má fama (infundada) dos sais de alumínio, o mercado de desodorizantes “naturais” disparou. Mas convém lembrar: em ciência, “natural” não é sinónimo automático de inofensivo. Estes produtos seguem, regra geral, o mesmo princípio das versões sintéticas: tentam disfarçar o cheiro, absorver a humidade ou reduzir as bactérias - apenas com activos diferentes.
O ingrediente estrela destas fórmulas é, muitas vezes, o bicarbonato de sódio. É, de facto, muito eficaz a absorver humidade e a alterar o pH das axilas, tornando-as menos favoráveis às bactérias. Ainda assim, está longe de ser perfeito: por ser abrasivo e ter um pH muito básico, pode causar irritações cutâneas graves em pessoas com pele sensível.
Da mesma forma, os óleos essenciais - usados em certos desodorizantes pelo aroma e por propriedades antimicrobianas - são concentrados de moléculas bioactivas potentes e podem desencadear alergias com facilidade.
Hoje, os cientistas chamam a atenção para outro risco que passa muitas vezes despercebido: a resistência aos antimicrobianos, um fenómeno semelhante ao que acontece com os antibióticos. Quando são constantemente expostas a agentes antibacterianos - venham eles de um laboratório ou de uma planta “biológica” - as bactérias das axilas aprendem a defender-se. Mutam, adaptam-se e, com o tempo, o produto perde eficácia.
Fizemos um julgamento precipitado dos sais de alumínio, acompanhados de perto desde os anos 1960 e cuja segurança foi novamente confirmada pelas autoridades de saúde em março de 2024. Nas concentrações actuais dos desodorizantes vendidos hoje, não representam qualquer perigo.
Em contrapartida, recebemos de braços abertos alternativas “naturais” que, apesar do ar inofensivo e do imaginário positivo que as rodeia, nem sempre foram avaliadas com estudos suficientemente rigorosos e longos para existir um grau de confiança sólido na sua suposta inocuidade.
A isto chama-se viés de naturalidade: leva-nos a acreditar que tudo o que vem da natureza é, por definição, bom, e que tudo o que é “químico” ou sintético é automaticamente suspeito. Como se a natureza fosse uma avó bondosa, quando, na realidade, produz sem esforço alguns dos venenos mais fulminantes conhecidos pela humanidade (cicuta, acónito, ricina, micotoxinas, etc.). Do ponto de vista científico, não existe uma oposição real entre “químico” e “natural”: a toxicidade depende das propriedades da substância, não do modo como foi obtida.
Se o objectivo é manter-se seco(a) numa apresentação importante ou num encontro romântico, o antitranspirante continua a ser o seu melhor aliado - sem motivo para receios sobre a saúde. É a opção apoiada por décadas de evidência científica. Se a sua prioridade é deixar o organismo “respirar” e, ao mesmo tempo, controlar os odores, um desodorizante clássico pode funcionar muito bem sem criar problemas. Quanto ao “natural”, encare-o pelo que é: uma preferência ética ou sensorial, nada mais. E também é perfeitamente possível não usar nenhum dos dois; biologicamente, o corpo humano está preparado para gerir sozinho as suas funções de regulação, sem ajudas. O Homo sapiens viveu bem sem estes produtos até aos anos 1970, antes de o cheiro corporal se tornar um argumento publicitário.
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