Cientistas descobriram que, em adultos anteriormente inactivos, ganhar aptidão física potencia a resposta bioquímica do cérebro a uma única sessão de exercício.
O resultado dá uma nova nuance a um conselho de saúde bem conhecido: ao treinar o corpo, pode aumentar-se a intensidade com que o cérebro “reage” a cada treino.
Picos da proteína cerebral BDNF
Em testes repetidos de ciclismo com adultos sedentários inscritos num programa de treino, surgiu uma alteração em marcadores sanguíneos associados à sinalização cerebral.
A Dra. Flaminia Ronca, da University College de Londres (UCL), observou que, à medida que a condição física melhorava, os participantes libertavam picos muito maiores da proteína cerebral BDNF após o exercício.
Nas sessões iniciais, a subida era apenas moderada; porém, nas semanas finais, o mesmo nível de esforço desencadeava aumentos consideravelmente mais fortes.
Este padrão sugere que os benefícios do exercício podem acumular-se na própria capacidade de resposta do cérebro, embora permaneça em aberto como é que esse sinal amplificado se reflecte na cognição.
A aptidão física aumenta os benefícios no cérebro
O factor neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) é uma proteína de crescimento que ajuda a manter as ligações entre as células cerebrais. Depois do exercício, pode reforçar as sinapses - os pontos de contacto onde as células nervosas comunicam entre si.
Nos participantes em melhor forma, verificou-se uma libertação mais acentuada de BDNF após o fim do treino, sobretudo no teste final.
O que este comportamento aponta é para um sistema que se torna mais preparado para responder, e não para um mecanismo que fique permanentemente “no máximo”.
Ainda assim, até treinos curtos parecem conseguir activar este mesmo sistema proteico numa única sessão em pessoas saudáveis.
Em 2008, investigadores mostraram que 15 minutos de exercício a subir e descer um degrau aumentavam de forma mensurável os níveis sanguíneos de BDNF.
O novo trabalho acrescenta uma segunda dimensão: o treino altera a força com que esse sinal sobe em esforços posteriores. Em termos simples, o efeito cerebral de um treino não é fixo - e a aptidão física pode ampliá-lo.
Circuitos de controlo mental reagiram
Os picos mais elevados de proteína acompanharam alterações no córtex pré-frontal (CPF), uma região frontal do cérebro ligada ao controlo e à concentração.
Essas mudanças surgiram durante tarefas de atenção e de inibição, em que o cérebro tem de manter o foco e travar a resposta errada.
Já nas tarefas de memória não se observou o mesmo padrão, o que aponta para um efeito selectivo, em vez de um impacto generalizado.
Essa selectividade é relevante, porque um melhor controlo mental muitas vezes determina se as pessoas notam benefícios no dia a dia - no trabalho, na condução e no autocontrolo.
Níveis mais altos de BDNF coincidiram com menor actividade em algumas regiões de controlo, um perfil que pode indicar que o cérebro precisou de menos esforço.
Como o desempenho não melhorou em todas as tarefas, esta interpretação continua a ser provisória e longe de conclusiva.
O estudo não permite afirmar que o BDNF, por si só, tenha causado a mudança; apenas mostra que ambos variaram em conjunto depois de a aptidão física melhorar. Ainda assim, o resultado é compatível com uma ideia prática: o treino pode ajudar o cérebro a realizar trabalho de controlo rotineiro com menos desgaste.
Ondas de memória tornaram-se visíveis
Um outro estudo em humanos registou efeitos do exercício directamente no hipocampo, uma região profunda essencial para a memória.
Após uma sessão de ciclismo, 14 doentes com eléctrodos implantados apresentaram mais “ripples” - curtas explosões de alta frequência associadas à memória - e ligações corticais mais fortes.
As medições foram feitas em pessoas a ser tratadas para epilepsia, mas o padrão coincidiu com o que a imagiologia cerebral já tinha sugerido.
Em conjunto com os resultados da Dra. Ronca, este achado indica que o exercício pode influenciar tanto a sinalização química como ritmos eléctricos rápidos no cérebro.
Treino físico e estrutura do cérebro
Estudos mais prolongados já tinham mostrado que o exercício aeróbio regular pode alterar a estrutura cerebral, e não apenas a química momentânea.
Em adultos mais velhos, um ano de caminhadas aumentou o hipocampo e melhorou de forma mensurável a memória espacial. Esse trabalho anterior incidiu em cérebros em envelhecimento, enquanto a Dra. Ronca estudou adultos inactivos, na sua maioria de meia-idade.
Ainda assim, a direcção apontada é a mesma: a aptidão física parece criar condições de que o cérebro pode tirar partido.
O que continua incerto
As pontuações cognitivas não melhoraram subitamente em todas as áreas, mesmo após o fim do período de treino.
Além disso, apenas 23 participantes completaram o conjunto total de dados, o que limita a confiança com que se pode generalizar o efeito.
“Sabemos há algum tempo que o exercício é bom para o nosso cérebro, mas os mecanismos através dos quais isto acontece ainda estão a ser desvendados”, disse a Dra. Ronca.
Mais participantes e uma condição de controlo a curto prazo mais rigorosa ajudariam a perceber se a alteração cerebral é, de facto, o motor de melhorias no pensamento.
Exercício, BDNF e aptidão do cérebro
Para quem está a começar do zero, o estudo deixa uma mensagem encorajadora: a resposta do cérebro pode melhorar antes de qualquer transformação dramática.
Não é preciso uma vida inteira de treino para modificar o sinal, porque o esforço repetido parece “ensinar” o sistema.
Isto não significa que cada volta de bicicleta afie a memória a pedido - e os novos dados não prometem isso. Significa, sim, que a aptidão física pode alargar a janela em que um treino ajuda o cérebro a fazer o seu trabalho.
Tudo indica que o exercício molda o cérebro em dois momentos: primeiro por mudanças químicas e eléctricas imediatas e, depois, por uma resposta mais forte à medida que a aptidão física se consolida.
O próximo desafio é demonstrar quando estas mudanças menos visíveis se traduzem em memória mais nítida, atenção mais estável e benefícios que as pessoas consigam sentir.
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