Perder peso suficiente com um fármaco GLP-1 costuma trazer consigo uma descida da pressão arterial - em parte, é esse o objectivo. Os cardiologistas tendem a ver isso com bons olhos e, à medida que os valores melhoram, muitas vezes reduzem a dose ou retiram medicamentos mais antigos.
Mas um cardiologista da Northwestern Medicine reparou noutro sinal. Doentes que tinham iniciado estes fármacos começaram a aparecer com tonturas, instabilidade e sensação de desmaio iminente.
Muitos já tomavam vários anti-hipertensores e, somando-se ao efeito do GLP-1, a pressão estava a cair demasiado - na direcção errada.
Surge um padrão
A primeira pista apareceu no consultório. O Dr. Micah Eimer, cardiologista na Feinberg School of Medicine da Northwestern, encontrava repetidamente doentes que, depois de começarem os novos GLP-1, se sentiam prestes a desmaiar ao levantar-se.
Um grande ensaio clínico mostrou que a semaglutida, vendida como Ozempic e Wegovy, reduziu as mortes cardiovasculares em cerca de um quinto em alguns doentes. Eimer prescreve estes fármacos com frequência e diz-se convicto dos seus benefícios.
"Sou um grande defensor dos GLP-1, são enormes", afirmou Eimer, que avançou com o estudo depois de ver doentes a mais a chegar com tonturas.
Esses doentes com tonturas partilhavam um traço comum - e isso ficou-lhe na cabeça até decidir ir procurar respostas.
Dentro dos registos
Para testar a suspeita, a equipa analisou registos de mais de 42.000 adultos. Todos já tomavam pelo menos dois medicamentos para a pressão arterial quando iniciaram um GLP-1.
Os investigadores procuravam hipotensão, ou seja, uma descida da pressão arterial para valores demasiado baixos. Contabilizaram os episódios mais problemáticos: desmaios, tonturas, quedas e medições que desciam abaixo de um limiar considerado seguro.
Nos seis meses seguintes ao início do tratamento, esses eventos aumentaram de 8,7% para 10,2% dos doentes. Ao fim de um ano, a diferença ainda se mantinha, embora menor.
Aos dois anos, o efeito tinha praticamente desaparecido e já não era estatisticamente fiável. O risco mais nítido concentrou-se nos primeiros meses.
Quem enfrenta o risco
Dois grupos concentraram a maior parte do perigo. Os adultos com mais de 65 anos representavam cerca de um terço da amostra, mas respondiam por mais de metade dos episódios de pressão demasiado baixa.
As pessoas com diabetes tipo 2 constituíam três quartos dos casos. Há dois padrões físicos que ajudam a perceber esta discrepância.
Com a idade, as artérias tornam-se mais rígidas e parcialmente obstruídas; por isso, uma queda súbita de pressão tem um impacto maior e a recuperação do organismo é mais lenta. Assim, um idoso pode ficar tonto onde um doente mais jovem talvez não sentisse nada.
Anos de glicemia elevada podem também lesar os nervos que regulam a pressão arterial, como já foi documentado numa revisão. Na diabetes, os ajustes automáticos que mantêm uma pessoa de pé deixam de funcionar com a mesma eficácia.
Porque pode fazer mal
Alguém que perde os sentidos ao levantar-se pode fracturar a anca ou bater com a cabeça. Num doente mais velho, uma única queda grave pode dar início a um declínio prolongado. Não se trata de um incómodo menor.
Há muito que os médicos sabem que uma quebra abrupta da pressão aumenta o risco de quedas perigosas. Um estudo em adultos mais velhos concluiu que aqueles cuja pressão descia muito ao levantar-se tinham uma probabilidade muito maior de cair no espaço de um ano.
Para Eimer, a pressão baixa é, por si só, um risco - em certos aspectos, mais preocupante do que a hipertensão com que os doentes começaram. A queda pode acontecer sem aviso e terminar nas urgências.
GLP-1 e pressão arterial
Perder 14 quilogramas (30 libras) pode fazer com que os comprimidos prescritos para um corpo mais pesado passem a actuar em excesso, empurrando a pressão para níveis desconfortavelmente baixos. Esta explicação parecia evidente, quase simples demais para ser posta em causa.
Cerca de um quarto dos doentes viu um anti-hipertensor ser reduzido ou suspenso durante o estudo - a decisão típica quando os valores ficam baixos. Isso parecia reforçar a hipótese de que o emagrecimento era a causa.
No entanto, quando a equipa ajustou a análise pela quantidade de peso que cada pessoa tinha perdido, o risco adicional manteve-se. A perda de peso, por si só, não explicava o fenómeno.
Qual é o factor escondido continua por esclarecer. É possível que estes fármacos actuem nos vasos sanguíneos ou no equilíbrio de fluidos de formas que ainda não foram bem identificadas.
Fármacos sem médico
Uma parte do que inquieta Eimer é a origem crescente destas prescrições. Uma fatia cada vez maior chega por vendedores online que não medem a pressão arterial do doente nem perguntam por tonturas.
"Estou particularmente preocupado com o risco para doentes que obtêm GLP-1 sem supervisão clínica directa e contínua", disse Eimer.
Sem acompanhamento, uma descida lenta até ao quase-desmaio pode passar despercebida até ocorrer uma queda. Quem estiver a perder peso rapidamente e sentir o quarto "inclinar" ao levantar-se deve referi-lo - não deve desvalorizar.
O que muda agora
Antes deste trabalho, os relatos de tonturas apareciam dispersos e em registos anedóticos. Agora, um número extraído de dezenas de milhares de registos quantifica o perigo.
Iniciar um GLP-1 aumenta a probabilidade de um episódio de pressão demasiado baixa em doentes que já tomam vários medicamentos para a tensão. Isso dá aos clínicos um ponto concreto de intervenção.
Se o médico souber que os primeiros meses são os mais arriscados, pode medir a pressão com mais frequência e reduzir outros fármacos antes de acontecer uma queda. A solução passa por vigilância mais precoce e por menos comprimidos.
A questão mais profunda é perceber porque é que estes fármacos baixam a pressão mesmo quando o peso não se altera. Responder a isso pode mudar a forma como os médicos decidem quem pode iniciar o tratamento em segurança e com que grau de vigilância.
A investigação foi apresentada na ENDO 2026, a reunião anual da Endocrine Society.
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