Pode soar totalmente contra-intuitivo, mas dá mesmo para manter uma boa higiene corporal sem sequer abrir uma torneira.
Depois de um treino puxado, poucas coisas sabem tão bem como um duche quente - ou até frio, quando a ideia é aliviar dores musculares. Para além de evitar que fique a cheirar mal por causa das bactérias que se multiplicam na pele, é um prazer simples, uma pausa de descompressão em que os problemas do dia parecem ir embora com a água.
Quando é que os géis de duche sem água (“sem enxaguamento”) fazem sentido?
Há, no entanto, momentos em que não existe chuveiro à mão: num refúgio de alta montanha a 2 400 metros de altitude, num bivaque em plena natureza, ou depois de um ultratrail longe de tudo. Nessas situações, quem anda metido em esforços intensos costuma ter um truque na mochila: os géis de duche sem água, também conhecidos como “sem enxaguamento”.
Normalmente custam entre 5 e 30 euros, consoante o formato e a marca. São fáceis de levar no saco antes de sair para uma aventura e encontram-se sem dificuldade em grandes superfícies, parafarmácias ou lojas de desporto.
Porque é que a sua pele nem sempre precisa de água para ficar limpa?
Comecemos por desfazer um mito: a água não é o “ingrediente activo” do seu duche. Isto percebe-se bem quando tenta limpar uma nódoa de gordura no sofá ou quando passa as mãos cheias de óleo por água depois de cozinhar. Se usar apenas água, o resultado é… gordura molhada. A razão é simples: as substâncias gordurosas são hidrofóbicas, ou seja, repelem a água e não se misturam com ela.
O que realmente faz a limpeza são os agentes tensioactivos - moléculas presentes no gel de duche - que têm uma característica muito particular. Uma das extremidades liga-se às gorduras, como o sebo ou a transpiração, enquanto a outra permanece solúvel em água. Quando estão em quantidade suficiente, organizam-se espontaneamente em micelas: pequenas estruturas esféricas, microscópicas, que aprisionam as impurezas no seu interior. A água limita-se a levar tudo embora quando se enxagua; funciona como um solvente transportador para arrastar os resíduos solubilizados.
Como usar um gel “sem enxaguamento” e o que substitui o enxaguamento
Os géis sem enxaguamento também incluem tensioactivos. O princípio é o mesmo: encapsulam resíduos orgânicos em micelas que ficam em suspensão no próprio gel. O processo é simples: aplica-se o produto no corpo, como se fosse um gel hidroalcoólico, e depois esfrega-se energicamente com uma toalha limpa. A fricção do tecido entra onde a água normalmente entraria: as fibras puxam e removem o gel carregado de impurezas.
Por isso, estes produtos acabam por ser úteis em muitas circunstâncias, mesmo fora de práticas desportivas muito exigentes. Se, por exemplo, vai de bicicleta para o trabalho, provavelmente já viveu aquele momento embaraçoso depois de um trajecto de 20 km sob um sol abrasador, em que fica à espera que o suor seque antes de ir ter com os colegas. E mesmo que não ande de bicicleta, um gel sem enxaguamento dá para refrescar as zonas mais críticas sem ter de improvisar uma “toalete de gato” por cima de um lavatório minúsculo.
Limitações: por que não substitui totalmente o duche
Ainda assim, não conte trocar o duche por completo. Estes géis são óptimos como alternativa pontual, mas alguns podem deixar uma película fina de polímeros e fixadores na epiderme, o que, com o uso repetido, pode desregular o equilíbrio do filme hidrolipídico e obstruir os poros. Use com moderação - a não ser que queira mesmo que a sua pele fique tão impermeável como uma toalha encerada.
E, sejamos francos: um duche continuará a ser mais agradável. Além de ajudar a remover melhor a sujidade, o jacto estimula a circulação linfática e sanguínea, e a exposição do corpo à água pode contribuir para uma redução da produção de cortisol (a hormona do stress). Encare estes géis como uma solução utilitária, o equivalente dermatológico a borrifar desodorizante por cima da camisola: desenrasca, mas não engana ninguém.
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