A reputação da dieta cetogénica (keto) costuma ir mais depressa do que a investigação que a sustenta. A maioria das pessoas segue-a para perder peso - e, para elas, a história fica por aí. Mas quem estuda doenças do cérebro tem reparado noutro padrão.
Uma equipa em Portugal quis perceber se as mudanças metabólicas da keto ajudam a explicar por que motivo esta alimentação continua a aparecer em estudos sobre Alzheimer, Parkinson e outras doenças aparentadas.
A resposta que encontraram é bem mais concreta do que uma promessa genérica de “benefícios para o cérebro”. E começa num problema de que muitos adeptos da keto nunca ouviram falar.
Dieta cetogénica vs doenças do cérebro
Em condições normais, o cérebro depende sobretudo da glicose - o açúcar que vem dos hidratos de carbono. Em várias doenças neurológicas, essa via energética falha: os neurónios deixam de conseguir usar a glicose e acabam por ficar sem energia, mesmo quando o açúcar continua disponível.
Quando os hidratos de carbono são retirados da alimentação, o organismo passa para um plano alternativo. No fígado, a gordura é convertida em compostos chamados corpos cetónicos, que conseguem contornar parte da maquinaria comprometida do cérebro e fornecer energia de forma mais directa.
Entre esses compostos, um dos mais activos é o beta-hidroxibutirato, ou BHB. Na Universidade de Coimbra, em Portugal, investigadores reuniram dezenas de experiências para desenhar um mapa de como esta troca de combustível poderá proteger os neurónios.
Ana Margarida Salgueiro e colegas descreveram uma cadeia de efeitos que vai muito além do fornecimento de energia. A revisão organiza provas dispersas e junta-as num quadro único.
Interpretar as imagens do cérebro
Em pessoas saudáveis, as cetonas no sangue mantêm-se em valores muito baixos. Já durante o jejum ou numa cetose profunda - um estado em que o corpo queima gordura, e não açúcar - esses níveis aumentam de forma marcada, e o cérebro passa a retirar delas uma parte significativa da energia.
Esta adaptação não é imediata, mas, depois de estabilizar, as cetonas conseguem assegurar uma fatia grande do que os neurónios necessitam. É aqui que o argumento da energia no cérebro deixa de ser abstracto.
Em exames de imagem de pessoas com Alzheimer ligeiro, observa-se menor captação de glicose em regiões cerebrais-chave. Ainda assim, a capacidade de usar um combustível baseado em cetonas mantém-se perto do normal. Ou seja, o problema parece estar centrado no metabolismo do açúcar, e não numa incapacidade global de gerar energia.
Um estudo clínico apresentou este fenómeno como “resgate energético do cérebro”: dar aos neurónios uma fonte alternativa para sustentar o que a glicose já não consegue. A equipa de Coimbra aponta esta via como uma das linhas mais sólidas da investigação, particularmente no Alzheimer, onde as falhas no metabolismo do açúcar surgem cedo.
Apagar o fogo
Para lá do papel como combustível, o BHB funciona também como sinal dentro das células. Ele reduz a actividade de um complexo proteico que desencadeia inflamação, diminuindo moléculas que mantêm o tecido cerebral num estado inflamatório.
A inflamação crónica atravessa estas doenças, e mitigá-la parece limitar parte do dano. Em modelos animais de Alzheimer, isso traduz-se em alterações observáveis.
Os marcadores de células imunitárias activadas diminuem e os mensageiros inflamatórios baixam. Em alguns ratinhos, a própria dieta chegou a aparentar recuperar sinais de comunicação entre neurónios ligados à aprendizagem e à memória.
Ainda não é claro se o BHB foi o responsável directo por esse efeito ou se outras mudanças metabólicas tiveram também peso. O mesmo corpo cetónico aumenta, além disso, um factor de crescimento que ajuda os neurónios a sobreviver e a formar novas ligações.
Esta combinação - menos inflamação e mais suporte - ajuda a explicar por que motivo os investigadores vêem potencial também no Parkinson, Huntington e noutros contextos. Por enquanto, porém, os dados mais fortes continuam a vir do laboratório, e não da clínica.
Limpeza celular e sinais do intestino
As células do cérebro dependem de um sistema de reciclagem para remover componentes danificados e proteínas mal dobradas que se acumulam durante a doença. À medida que as condições progridem, esse sistema perde eficácia.
A cetose parece reactivar esse mecanismo, permitindo que as células eliminem agregados tóxicos antes de se acumularem.
A keto também altera o conjunto de bactérias no intestino - e esse efeito chega ao cérebro. Em ratinhos jovens e saudáveis, a dieta afastou a flora intestinal de perfis mais inflamatórios e aproximou-a de perfis considerados mais benéficos, associando-se a melhor fluxo sanguíneo cerebral.
Num ensaio separado com pessoas com compromisso cognitivo ligeiro, observaram-se mudanças semelhantes, juntamente com marcadores relacionados com o Alzheimer.
Ainda assim, estes resultados sobre o intestino assentam numa base menos firme do que o trabalho sobre energia. Os compostos produzidos por essas bactérias variaram bastante entre estudos. A ligação parece existir, mas está longe de estar fechada.
Razões para prudência
Apesar da biologia promissora, há um ponto fraco importante: a maior parte das provas vem de animais, não de humanos. Um mecanismo que funciona de forma “limpa” num ratinho de laboratório pode não se repetir numa pessoa com doença em progressão.
Além disso, a dieta cetogénica é difícil de manter no dia-a-dia. Está entre os planos alimentares mais exigentes de sustentar, com efeitos adversos que vão de obstipação e insónia a aumento do colesterol.
Alguns estudos de maior duração associaram-na mesmo a um risco mais elevado de doença cardíaca e diabetes tipo 2. Esses custos pesam quando se tenta equilibrar quaisquer potenciais benefícios para o cérebro.
Por isso, os autores não chegam ao ponto de chamar à keto um tratamento. Em vez disso, apresentam-na como um possível complemento às terapias existentes - algo que poderá aumentar a resiliência e aliviar sintomas, sem prometer curar.
Caso a caso, o cálculo será diferente.
Um roteiro para a investigação
Antes desta revisão, as provas que relacionavam a keto com doenças do cérebro estavam espalhadas por centenas de experiências, cada uma centrada num mecanismo isolado. O contributo de Salgueiro e da sua equipa é integrar tudo num único mapa.
Esse mapa mostra como o fornecimento de energia, a inflamação, a “limpeza” celular e os sinais vindos do intestino convergem sobre os mesmos neurónios. É essa convergência que merece maior atenção.
Uma alimentação adoptada para emagrecer acaba por tocar em quase todos os processos que falham no cérebro envelhecido - tudo através de uma química assente nas cetonas. E é no Alzheimer em fase inicial, em que o metabolismo da glicose é dos primeiros a degradar-se, que a hipótese parece assentar melhor.
O que muda, então, é a agenda de investigação. Ninguém está prestes a receitar bacon e manteiga para demência. Mas a revisão deixa às equipas clínicas um alvo claro: testar se fornecer ao cérebro um combustível alternativo consegue abrandar o declínio em pessoas - e não apenas em ratinhos. É essa a pergunta a que a próxima ronda de ensaios em humanos terá de responder.
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